A vitória sobre o EU: Acabaram-se as palavras

                           A VITÓRIA SOBRE O EU: ACABARAM-SE AS PALAVRAS

 

 "Acabaram-se as palavras de Jó" (Jó 31:40b)

 

     Na análise de muitos, este é um dos principais e mais importantes versículos de todo o livro de Jó. É absolutamente tremendo o que Deus começa a fazer quando suas palavras simplesmente acabam! Nos dois primeiros capítulos do livro, há o diálogo entre Deus e Satanás a respeito da vida de Jó. Aqui acontece algo muito singular: Deus testemunha a respeito de um homem! Que gloriosa e tremenda benção é ser conhecido por Deus! Também surgem a figura dos famosos três amigos de Jó, que se levantam dos seus lugares para, juntos, demonstrarem solidariedade e consolá-lo. A partir daí, vemos uma infinidade de diálogos de Jó com cada um deles. São exatos 29 capítulos de diálogos, cada vez mais acalorados à medida que o tempo passa, na tentativa de se achar a origem do problema e consequentemente sua solução, até que finalmente as palavras acabam, tanto as de Jó, quanto as dos amigos. 

     O livro de Jó nos ensina que, ao contrário do que diz a danosa "teologia da prosperidade" ou "teologia da retribuição", o homem não serve a Deus pelo que Ele dá, nem sofre ou é recompensado pelo que ele faz ou deixa de fazer o "bem". O verdadeiro ensino desse livro é que há um progresso na vida do homem, em que ele é moldado a sair de um bom estágio inicial  de caminhada a uma real experiência de revelação do Senhor. Pela graça, de glória em glória! Entender como se vence através desse processo é o segredo de uma vida vitoriosa. 

     Enquanto os diálogos e as tentativas humanas (mesmo que sejam boas tentativas), buscam entender as dificuldades da caminhada; enquanto os homens, com suas emoções, intelectos e vontades, falam, Deus simplesmente se cala. O Senhor não trabalha com o auxílio de nada que seja humano. O natural, seja ele bom ou ruim, simplesmente não co-habita com o celestial. Não se coloca remendo novo em pano velho, nem vinho novo em odres velhos... Para que Ele cresça nós temos que diminuir. A história de Jó é uma história onde o EU é vencido, onde o poder da alma humana dá lugar ao poderoso agir do Espírito de Deus! Deus age quando o homem se cala. Essa é uma linda história onde O EU dá lugar ao EU SOU! 

     Quando analisamos os discursos dos amigos, vemos boas palavras, bons conselhos. Quando vemos a réplica de Jó, vemos igualmente, colocações no mínimo coerentes, mas por que não foram suficientes? Por que não atingiram o objetivo desejado? A resposta é porque a alma, onde se sedia as boas intenções, as emoções, a sabedoria e a voluntariedade humana, não pode compreender as profundezas de Deus. Carne e sangue não podem herdar o reino de Deus. É somente pelo Espírito que os mistérios de Deus podem ser revelados. "o Espírito penetra todas as coisas, até as profundezas de Deus" (I Co 2:10). O homem não compreende, mesmo com tudo de "bom" que ele tenha, o propósito de Deus. A medida de Cristo que habita em nós, o Cristo sendo formado em nós, é quem pode nos levar ao propósito. Por isso, Deus repreende os "bons diálogos", as "boas tentativas", porque elas não podem retratar aquilo que Deus é: "A minha ira se acendeu contra ti e seus dois amigos, porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó" (Jó 42:7). 

     Deus age quando o homem se cala. Toda estratégia humana é inútil se não estiver envolta no poder do Espírito. Elas não podem nos levar ao pleno conhecimento do Pai. 

     Surge, depois da falta de palavras humanas que satisfizessem, a figura gloriosa do "quarto" homem: Eliú. O significado do seu nome: "Ele é Deus". Alguém extremamente educado, que espera os primeiros esgotarem suas possibilidades, para expressar a verdade. Eliú é a figura clara do Deus, que através do Seu Espírito se revela, depois das tempestades, dos trovões, naquela brisa mansa e suave trazendo a revelação da vontade de Deus. Seis capítulos de um discurso totalmente diferente dos anteriores. Um falar que não busca condenar culpados nem exaltar inocentes, mas que exalta aquele que é o único digno de exaltação, o Todo-Poderoso. Na exaltação de Deus, Jó compreende; a alma se cala e Deus age. Como necessitamos, nesses dias, que os santos ouçam o falar manso do Espírito Santo para que possamos ser curados e a ênfase do evangelho volte a ser a centralidade de Cristo e não os homens e suas atitudes!  Ao falar de Eliú não cabe resposta de Jó. E é exatamente assim que ficamos quando somos capturados pela revelação pura do seu coração. Impossível agora contender contra o Espírito; impossível não se dobrar diante de tanto poder. 

     Nós não precisamos fazer de Cristo o nosso Senhor. Ele já é o Senhor de tudo, quer aceitemos ou não. O que necessitamos é simplesmente reconhecer agora o que todo joelho reconhecerá no Grande dia. Deus age e fala, sempre fala, não usa de bajulações (Jó 32:21), falando o que queremos ouvir, mas o que precisamos ouvir. De muitas maneiras Ele fala, embora o homem possa não atentar para isso (Jó 33:14). Quando as palavras humanas acabaram, as celestiais se manifestaram e Jó pôde, finalmente, conhecer o seu glorioso propósito: "Antes eu te conhecia de ouvir falar, mas agora, os meus olhos te vêem" (Jó 42:5). Deus os abençoe. 

 

Pr Marcos Reis